Depois
que a poeira já baixou, sobre o susto que foi rever
Lobão aceitando voltar ao Mainstream que por tanto
tempo criticou, vamos reencontrá-lo na segunda passagem
de sua tournê do show Acústico por São
Paulo.
A
primeira vista duas coisas chamam muita atenção
no cenário, ali, exposto antes do início do
show, no palco, com as cortinas abertas, a absoluta ausência
de objetos de cena, com simples paredes negras no fundo
e nas laterais e a quantidade de racks, cada um sustentando
instrumentos de cordas numerosos e variados; criavam a sensação
de que se estava em plena Teodoro Sampaio, numa daquelas
lojas abarrotadas de intrumentos.
A
sensação cai por terra, quando as luzes se
apagam e retornam com Lobão e banda já posicionados
no palco, iniciando o show com El Desdichado II
uma pancada na orelha que impressionaria até mais,
não fossem alguns problemas de som, normais quando
se trata da primeira música de uma apresentação.
Com
o som já melhor, era a vez do hit Essa Noite
Não, em uma simpática versão
folk, com direito a banjo tocado pelo guitarrista Edu Bologna
e harmônica tocada pelo tecladista Roberto Pollo.
A
outrora eletrônica Robô/Roboa recebe uma versão
completamente orgânica com direito a uma bela execução
de slide guitar de Edu Bologna.
Lá
pelo meio do show, Lobão começa a conversar
com a platéia sobre aquela brincadeira das pessoas
ficarem pedindo Toca Raul! em todos os shows.
E para surpresa de todos, manda em um só fôlego
Maluco Beleza, Metamorfose Ambulante
e Gita; dizendo ainda que acabara de gravar um Tributo
para Raul Seixas na Rede Globo e que só ali tinha
percebido a importância do trabalho musical do cara,
referindo-se a Raul como gênio.
Retorna
ao roteiro normal do show, mas é engraçado
perceber que Lobão leva muito mais a sério
seu material mais recente, composições de
sua fase independente, como A Queda e A
Vida é Doce chegam com maior impacto ao palco
e não só pela temática, mas pela própria
interpretação mais visceral.
Enquanto
as letras mais românticas, recebem um outro tratamento,
aparece no rosto do cantor uma expressão tão
cínica, que chega a dar mêdo. Paro um minuto
para pensar o que estaria passando pela cabeça de
uns tantos casais de mais de 30 anos de idade que estão
ali pela platéia nesta hora, mas mudo de idéia,
quando o velho Lobo começa a brincar com o cantor
Lulu Santos declarando que ao rever seu material no processo
de escolha de repertório para o Acústico,
percebeu que havia tomado o lugar de Lulu, como o
Último Romântico.
Já
desisti de entender, são coisas de Lobão!
Um artista que, diferente de muita gente de sua geração,
mostra que está em boa forma musical, fez um ótimo
disco ao vivo, um dos melhores de sua carreira, até
arriscaria dizer. E, de fato, estava fazendo muita falta
neste quadro maior do rock brasileiro, de onde se havia
retirado.