Considerado
por boa parte das pessoas apenas como mais uma fase da vida,
um dos muitos rituais de passagem que fazem parte da adolescência,
o culto a um ídolo tem sido colocado em cheque por
recentes descobertas feitas por psicólogos americanos
que encontraram neste comportamento, até então
considerado normal e inofensivo, traços que podem
evoluir em problemas graves.
A revista Scientific
American publicou uma pesquisa desenvolvida por Lynn McCutcheon,
da DeVry University de Orlando, Flórida, e James
Houran, da Southern Illinois University, em Springfield.
Estudando o comportamento de cerca de 600 pessoas, os cientistas
classificaram os diferentes graus de dependência criados
entre os fãs, e as celebridades que eles cultuam.
Estes graus variam do
simples interesse por acompanhar o que acontece na vida
destas celebridades por puro entretenimento, até
aos casos patológicos, onde o fanatismo transforma-se
em doença, e o fã assume atitudes perigosas
ou até mesmo um comportamento criminoso.
Exagerados ou não,
ao dados das pesquisas são apenas mais um instrumento
para quem tenta entender um estilo de vida que envolve atitudes
variadas e muitas vezes arriscadas, mas quase sempre, movidas
por um amor e uma dedicação que não
medem esforços.
A Revista Eletricidade
foi investigar mais a fundo este estilo de vida e traz algumas
pistas que podem ajudar a definir melhor o que é
ser um fã. Para isso, conversamos com fãs,
presidentes de fã-clubes, psicólogos, produtores
do Programa Fanático MTV e, é claro, músicos
para traçar um quadro deste mundo a parte.
Segundo o dicionário
Aurélio, fã, é uma redução
da palavra inglesa fanatic, fanático, em português.
E o verbete é definido como admirador exaltado de
certo artista de rádio, cinema, televisão,
etc.
E às vezes, eles
são mesmo muito exaltados, é o caso de Caroline,16;
fã dos Backstreet Boys, ela conta que passou uma
semana dormindo na fila de uma apresentação
da banda no Brasil, e que chegou até mesmo a cortar
na pele dos próprios braços o nome de seus
ídolos. Cortar na pele? É os fãs podem
chegar a atitudes extremas que colocam em risco sua integridade
física. Alguns chegam a se atirar na frente de ônibus
ou vans, apenas para tentar chegar um pouquinho mais perto
de seus ídolos.
Mas ser fã não
caracteriza necessariamente uma patologia, pelo menos é
o que diz a psicóloga Silvana D'Avino Portugal, para
ela "Desde que não coloque em risco a vida de alguém,
não ultrapasse limites, ou não interfira na
individualidade das pessoas. Não é problema
ser fã, e sim a forma como as pessoas se comportam
para expressar a admiração."
E não faltam
exemplos de atitudes exageradas, segundo Nancy Munhoz, mais
conhecida como Nany Bon Jovi, 41 anos, presidente do fã
clube Living In Sin by Bon Jovi, criado em 1990, "Conheço
pessoas que já perderam empregos, terminaram casamentos,
venderam jóias, carro, tudo para seguir a banda."
Para a psicóloga
Silvana D'Avino Portugal são inúmeros os motivos
que levam uma pessoa a tornar-se um fanático; isso
pode acontecer por conta "de frustrações,
inseguranças, falta de auto-conhecimento, carência
afetiva, entre outros, dependendo das vivências existenciais
de cada um.
A pessoa usa do mecanismo
de projeção para se realizar através
de outra pessoa; projeta sucesso, força, beleza,
entre outros atributos. A pessoa não tem condições
pessoais para se auto-realizar, por motivos diversos de
cada um ou até mesmo desconhece suas potencialidades,
então projeta características que gostaria
de ter ou que desconhece ter ou até mesmo, que "acha"
importante ter. Acaba desenvolvendo ansiedade e/ou depressão,
porque de alguma forma vai percebendo, de forma inconsciente
ou não, que existe um vazio e que tenta preencher
com aspectos de outra pessoa, só que esse vazio não
é preenchido porque quem tem esses atributos é
o outro."
Entretanto, Silvana
D'Avino Portugal não considera a indústria
do entretenimento como a maior responsável pela alimentação
do fanatismo; "acredito que essa indústria somente
aproveita do fanatismo das pessoas para vender seus produtos.
Cada pessoa, por si só, alimenta o fanatismo, segundo
os seus aspectos psicológicos."
Se a identificação
com o estilo, som ou mensagem de uma banda é a responsável
pelo início de uma relação de admiração
por um determinado artista, criando o fã; a organização
em fã-clubes surge aparentemente de uma necessidade
de dividir a experiência com outras pessoas que pensam
da mesma forma, para Nany Bon Jovi, "o principal é
não se sentir sozinho nem diferente, coisa que parece
que a sociedade em geral faz questão de achar...
Pessoas que tem ídolos são sempre taxadas
de imaturas, inconseqüentes, irresponsáveis
e tudo mais. Quando elas chegam ao fã clube e vêem
que existem centenas de outras pessoas iguais a elas, geralmente
esta é uma sensação maravilhosa. Além
de que pode-se fazer novos amigos, trocar materiais, fotos
ter informações certas e muitas vezes acesso
a coisas que não se acham em lojas."
Mas e para o artista,
será que o assédio constante chega a ser incômodo?
Qual será a sensação de entrar em um
restaurante, ou lugar público lotado e no mesmo momento
sentir-se alvo de todos os olhares? Para Mick Hucknall,
42 anos, estes olhares são uma rotina há quase
20 anos, vocalista do grupo britânico Simply Red,
uma banda de grande sucesso, o cantor não se considera
uma vítima do assédio de seus fãs;
"Eu não recebo nenhum assédio mais violento
por parte dos fãs. Geralmente quando eles se aproximam
de mim nos lugares é de uma forma amigável.
Eles me tratam com respeito e eu retribuo esse respeito.
"
Fanático
MTV
Com os fãs como
público alvo, foi criado o programa "Fanático
MTV", apresentado mensalmente pela MTV Brasil, ele vai ao
ar todo último sábado do mês, a partir
das 20hs e conta sempre com uma banda que já tem
história na música nacional. O programa tem
sempre um fã escolhido através de uma redação
que deve reunir conhecimentos sobre a banda, criatividade
e muita vontade de participar.
O programa conta com
três quadros fixos, o primeiro é o Fanático.Vídeos,
onde são mostrados os vídeoclipes comentados
pela banda e apresentados pelo fã.
A segunda parte é
o Fanático.Doc, onde são mostradas as matérias
que fazem parte do arquivo da MTV sobre a banda e a seguir
é a vez do Fanático.Show, uma apresentação
exclusiva, gravada nos estúdios da MTV, com uma platéia
de 100 pessoas inscritas.
O produtor do Fanático
MTV, Fernando Taliba, explica melhor qual é a idéia
do programa: "Com esse nome ele está no ar há
quase um ano, (desde 03/03), mas na verdade, esse formato
de programa já existia com o nome "Banda MTV". A
idéia dessa mudança do Banda para o Fanático
é essa, ter um fã que conduza a entrevista
com a banda."
Participando das gravações
desde o primeiro programa, ele afirma que ainda não
presenciou nenhuma atitude mais radical por parte de nenhum
dos fãs, apenas "coisas engraçadas que acontecem,
principalmente no momento em que o fã encontra a
banda pela primeira vez. E daí vai de cada indivíduo,
tem diversas reações: tem a pessoa que fica
travada, tem aquela que começa a falar sem parar,
tem pessoa que abraça, que não sabe o que
fazer, que começa a tremer.
E assim, cada um. Eu
acho que o momento mais legal para a gente é o momento
em que a gente consegue captar o primeiro contato entre
a banda e o fanático."

Na fila para a gravação
do "Fanático", a presidente do Fã-Clube "Dance
Enquanto é Tempo", criado em 96 e um dos primeiros
da banda Jota Quest, Luciane, acha que "a maior loucura
de um fã é ser fã; é você
querer estar junto da banda independente deles te conhecerem,
deles saberem a tua história ou saberem porque são
importantes para você."
O próximo programa
Fanático MTV, deve levar aos estúdios da emissora
o grupo KLB. Para os milhares de fãs da boys band
brasileira, com certeza, será uma ótima oportunidade.
Adriana
Maraviglia
Redação
Eletricidade
Os
fãs no Cinema:
- Febre de Juventude
- Fã, Obssessão
Cega
- Quase Famosos
- Rock Star
- Doidas Demais
- O Fã
- Detroit Rock City
Os fãs na
Internet:
- Fã
Clube Dance Enquanto é Tempo
- Fã
Clube Living in Sin by Bon Jovi