O
letreiro apresentado na abertura da cinebiografia de Chico
Xavier dá uma pista sobre o que estamos prestes a
assistir quando afirma que a vida de um homem não
cabe em apenas um filme.
A
do biografado com certeza não caberia, foram mais
de 90 anos dedicados ao próximo, com um amor e uma
doçura pouquíssimas vezes vistas em um ser
humano, que as circunstâncias e a obra extensa, de
400 livros psicografados, acharam de mistificar e praticamente
santificar; mas que o cinema aqui, opta por humanizar.
O
filme de Daniel Filho, baseado no livro "As Muitas
Vidas de Chico Xavier" de Marcel Souto Maior, adaptado
excepcionalmente por Marcos Bernstein, pinta um retrato
sobretudo humano do mito, usando como linha condutora uma
apresentação dele ao vivo, no Programa Pinga-Fogo,
uma espécie de ancestral do Roda-Viva, que no início
da década de 70 criou polêmica ao tentar desmascarar
o médium em rede nacional e não conseguir,
mesmo sabatinando-o por mais de 3 horas seguidas, estourando
completamente sua duração habitual de apenas
1 hora.
A
produção então leva o espectador até
a infância difícil de Chico (Matheus Rocha),
a morte da mãe (Letícia Sabatella), as torturas
da madrinha (Giulia Gam) e as vozes que já não
o deixavam em paz, "em seu canto" como ele mesmo
deseja em sua conversa com o simpático Padre Scarzelo
(Pedro Paulo Rangel).
O
garoto cresce e o ator Angelo Antonio assume o personagem
e ajuda a mostrar algumas de suas características
mais fascinantes, a batalha incansável pelo próximo,
quando literalmente trabalha até os olhos sangrarem
e mais tarde a expulsão da casa de sua família
pela confusão que seu trabalho de filantropia causava;
em uma das cenas mais emocionantes do filme em que contracena
com a atriz Carla Daniel.
E
o primeiro encontro de fato com Emmanuel (André Dias),
o guia espiritual que o acompanhará por toda a vida.
Mas
das três fases retratadas da vida de Chico, a melhor
e mais impressionante é a terceira; já na
década de 70, quando é interpretado brilhantemente
por Nelson Xavier, como um homem que fisicamente começa
a aparentar a fragilidade física que caracterizou
as últimas décadas de sua vida.
Além
dos problemas de saúde aparecem mais umas tantas
facetas humanas, o medo de morrer, responsável por
um dos momentos mais divertidos do filme, a vaidade, o bom
humor, enfim, qualidades e defeitos que costumamos negar
com facilidade aos mitos.
E
para não deixar de fora alguns fatos importantes
que comprovam a relevância de Chico na própria
história do país, Daniel Filho optou por incorporar
às tantas histórias reais da vida do médium,
uma ficção que sintetiza algumas das que ficaram
mais notórias: as polêmicas absolvições
de réus baseadas em mensagens das vítimas
psicografadas por Chico.
Orlando
(Tony Ramos), um ateu ferrenho, combate a crença
da esposa Glória (Cristiane Torloni) no médium,
até que lê com seus próprios olhos uma
mensagem do filho morto em um acidente com arma de fogo
e a leva ao tribunal ajudando a inocentar o acusado pela
morte de seu filho.
Uma
chance para conhecer melhor um personagem que foi acima
de tudo um exemplo de vida que deveria ser seguido com uma
maior frequência, por todos os seres humanos, independente
de religião e origem.