Com
um currículo de mais de 40 anos de bons serviços
prestados às vertentes mais elaboradas do pop e do
rock, o cantor Peter Gabriel diminuiu sensivelmente o ritmo
de seu trabalho nas últimas duas décadas;
no século 21, o seu único trabalho foi lançado
em 2002, o excelente "Up".
Quase
sempre inquieto, o artista sempre garimpou muito atrás
de novidades, incorporando-as à sua música,
sejam elas as batidas da percussão africana ou a
busca radical da perfeição do rock progressivo
que tornou-se um elemento chave no trabalho da banda Genesis.
Mas
agora, ao completar 60 anos de idade, o sempre inspirado
pelos ritmos Gabriel resolveu fazer algo de ainda mais radical:
convidar o público a esquecer o ritmo e prestar atenção
nas letras.
Assim
é "Scratch My Back", um disco estranho
da primeira à última audição,
que certamente adiciona mais um capítulo controverso
à sua história musical.
Com
uma coleção de 12 covers de artistas tão
distintos quanto David Bowie e Randy Newman sem qualquer
compromisso com seus arranjos originais; Gabriel incorpora
a cada uma das faixas uma cara própria, com piano,
voz e orquestra.
E
o primeiro choque é já na primeira faixa:
a pop "Heroes" de David Bowie ganhou um arranjo
de cordas sensacional, que começa lento e triste
e vai crescendo "heróicamente" até
o final.
"Boy
in the Bubble" também está irreconhecível
sem a vestimenta World Music da versão original de
Paul Simon e com um acompanhamento de cello e piano... sim...
ficou estranho, mas soa bem.
E
por aí vai, tudo muito clássico, até
mesmo as músicas que vieram de bandas mais "moderninhas"
como Bon Iver, Arcade Fire, The Magnetic Fields e até
Radiohead ganharam o mesmo tratamento, lento, melancólico,
mas ao mesmo tempo sinfonico e grandioso.
Mais
uma vez, Peter Gabriel usa suas próprias lentes para
mostrar ao resto do mundo o que está vendo, mas acho
que desta vez, infelizmente, não haverá muita
gente capaz de enxergar a beleza que ele foi capaz de produzir.